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Parece um processo automático.

Você vê que todo mundo está mudando o nome do cargo de Arquiteto de Informação para User Experience Designer (ou ExU), e então você muda também.

Algumas pessoas fazem isso para acompanhar a curva do mercado e não ficar para trás. Outras simplesmente porque esse é o cargo que lhes foi oferecido, então nada mais justo do que alterar a nomenclatura no perfil do Linkedin e na assinatura de email de uma vez só. O nome em inglês é “cool”, não dá pra negar.

Só que se você faz o desenho da experiência do usuário, então quer dizer que você desenha para esse usuário, certo?

Você precisa saber o que esse usuário quer, o que ele precisa, o que ele pensa sobre o seu produto.

Mas eu já trabalhei tempo demais em agências de publicidade para saber o quanto os trabalhos de design são realmente centrados no usuário ou não. Por experiência própria, sei que a porcentagem de projetos que realmente envolvem usuários (ou alguma quantidade mínima de pesquisa e teste) não passa dos 20%.

E eu tive sorte de trabalhar em agências de grande porte, para marcas famosas, cujos projetos possuíam budget relativamente alto se comparado com o restante do mercado. O que pode ser bom ou ruim. Realmente não sei.

Vale um disclaimer aqui: esse post foi originalmente escrito para falar sobre agências de publicidade. Mas se você trabalha em um time de design em qualquer lugar (seja agência, estúdio de design, portal, veículo, consultoria), também se intitula UX Designer e também sente que nessa fórmula tem menos U do que você gostaria, fique à vontade para prosseguir. Digo isso porque também já conversei com muitas pessoas que trabalham nesse tipo de empresa para saber que em alguns lugares a realidade se repete.

Mas então por que as pessoas mudam o nome de Arquiteto de Informação ou de Designer de Interação para UX Designer?

  • Porque todo mundo está mudando então eu vou mudar também;
  • Porque é mais “cool”, como citei no início do post;
  • Por imposição da empresa em que trabalham;

Mais algum?

A pergunta-chave desse post é: o quanto de U você realmente pratica no seu título de UX Designer?

Quantos projetos você participa que envolvem pesquisas quantitativas, entrevistas em profundidade, focus groups, estudos etnográficos, enquetes, ou outros métodos de pesquisa? E quantos deles são apenas design e documentação de interfaces, através de sitemaps e wireframes?

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Se olhando para o seu portfolio a equação acima não pende para o primeiro lado e ainda assim você diz que faz Design Centrado no Usuário (User-Centered Design), alguma coisa está errada. Tanto na cabeça de quem te contrata, quanto no seu próprio senso do que é verdade e do que é mentira. “Pender para um lado” é eufemismo. Teoricamente, qualquer projeto em que você tenha pulado a etapa de investigação com usuários, não foi um projeto centrado no usuário. E sinto muito te dar essa má notícia, mas nele você não foi um UX Designer.

Eu não vou nem entrar na discussão de que “experiências não podem ser desenhadas, porque são subjetivas”. Isso é assunto para outro post. E o foco deste aqui é o U, não o X. Sobre isso, tem um vídeo interessante: “UX is strategy, not design“.

Mas voltando à discussão inicial: se existe um mercado inteiro de agências de publicidade brasileiras que possuem times inteiros de UX Design, às vezes com cinco, dez, vinte profissionais, e o usuário não é consultado na grande maioria dos projetos – então algo está bem errado. Eu me refiro às agências de publicidade porque vejo que as marcas são responsáveis pelo financiamento de uma boa fatia dos projetos brasileiros de design que são colocados na rua. Mas eu também conheço gente que trabalha em startups, em estúdios especializados em design, ou mesmo gente que se nomeia um híbrido de UI/UX Designer, que vergonhosamente nunca descolou a cara da frente do pacote Adobe para ir para a rua conversar com usuários.

Mas então qual nome eu deveria usar?

  • Se você é UX designer, seu ponto fraco é pesquisa com usuários e seu ponto forte é desenhar interações inovadoras, simples e usáveis, talvez você seja na verdade um ótimo Designer de Interação.
  • Se você é UX designer, seu ponto forte é simplificar grandes quantidades de informação e deixá-la simples para os usuários, talvez você seja na verdade um excelente Arquiteto de Informação.

Pode parecer somente uma discussão semântica, mas o buraco é mais embaixo.

Porque os PPTs que são apresentados para os clientes falam muito sobre “desenhar experiências que sejam relevantes para as pessoas”, os slides nas conferências falam muito sobre “entender as necessidades do usuário” e os perfis no Linkedin falam muito sobre “Fulano acredita muito em melhorar a vida das pessoas”.

Mas o que eu ouço de depoimentos de amigos é que os UX Designers desses times se envolvem muito pouco com o consumidor e com o cliente. Entregam job e depois não vêem mais. Se contratam uma empresa de testes de usabilidade, não fazem muita questão de acompanhar de dentro da sala de espelho. Não olham métricas, não se importam de verdade se o produto está dando resultado.

Então a gente está querendo enganar a quem exatamente?

Nossos chefes?

Nossos futuros contratantes?

Nós mesmos?

Eu conheço gente que preferiu desistir dos modelos já existentes nesse mercado e criar sua própria empresa, para pelo menos tentar estabelecer um processo de design que fosse realmente user-centered. E essas pessoas têm minha completa admiração.

Também conheço gente que foi trabalhar como freelancer, fazendo consultoria de UX e escapando desse modelo pré-estabelecido que ignora quase que completamente as pessoas que vão usar o produto. Nesse caso, o que ouço é que essa equação melhora um pouco e que as empresas que contratam esse tipo de consultoria estão realmente interessadas em ouvir o consumidor final. Ainda assim, muitos dos pedidos de freelas que chegam até elas acabam indo direto para a tríade sitemap-wireframe-protótipo. E esse protótipo nunca chega na frente de um usuário real do produto, mas somente na frente dos stakeholders que estão pagando a conta no final.

Será que o nome “arquiteto de informação” ou “designer de interação” não faz mais sentido com a realidade que você enfrenta das 9 às 6?

Esse post é um desabafo, mas é ao mesmo tempo um projeto pessoal. Já falei por aqui como estou tentando incorporar pesquisas com usuários nos projetos dos quais participo, mesmo que não tenha sido devidamente instruído para tal. Ou eu consigo honrar esse U no meu cargo, ou eu não consigo. E tudo bem também se eu não conseguir e decidir mudar o nome do cargo para algo que faça mais sentido.

Mas ficar no meio do caminho e achar que está tudo bem, já não faz muito sentido agora.

Fabricio Teixeira
Curador @ Blog de AI, Diretor de UX @ R/GA NY, Updater @ Update or Die, UX Professor @ Miami Ad School. No meio de tantas siglas, de vez em quando acha tempo para compartilhar palavras inteiras por aqui.
Fabricio Teixeira
Fabricio Teixeira