
Conta Tristan em seu blog sobre uma experiência que teve com o ícone de bomba de combustível em seu carro.
Uma vez ele leu que a seta que aparece próxima ao ícone de bomba de combustível indica em que lado do carro o combustível entra.
Isso seria realmente inteligente, uma vez que não existe uma padronização muito clara de em qual lateral do carro fica a entrada de combustível. E isso influencia diretamente na forma como você estaciona o carro no posto de gasolina.
Mas quando ele foi verificar em seu próprio carro, descobriu que essa seta não era universal. Em seu carro ela sequer aparecia.
Pesquisando mais, descobriu que na verdade é a orientação da bomba que diz em qual lado o combustível entra: se a mangueira de combustível aparece para a esquerda, o combustível entra pela lateral direita do carro. E vice-versa.

Tristam pensou ter descoberto o maior segredo da indústria automotiva.
“Mas se isso fosse realmente verdade”, diz ele, “seria a iconografia mais estúpida que eu já vi”. Mesmo que você soubesse da relação entre o ícone da bomba e o lado do carro, ainda assim haveria uma ginástica bizarra em seu cérebro de “esquerda significa direita e direita significa esquerda”. E os pictogramas existem para que você não precise pensar nem por um segundo. Nesse caso, o fato do pictograma exigir uma explicação ou um raciocínio mais complexo do cérebro já o torna inválido imediatamente.
Anos atrás ele próprio tinha participado do processo de revisão do ISO7001, uma regulamentação que analisa pictogramas de sinalizações públicas para que se adequem ao padrão internacional.
E para que um pictograma seja incluído no padrão, ele precisa ser corretamente interpretado por 80% das pessoas, com menos de 10% das pessoas interpretando o significado exatamente inverso.
É a regra dos 80/10.
Um dos pictogramas que estavam sendo avaliados na ocasião era esse abaixo:

Pode não parecer, mas serve para indicar que determinado prédio é um abrigo seguro contra tsunamis. Esse era um dos pictogramas que não se adequavam à regra do 80/10.
Nas palavras de Tristam:
Lesson 1: If a pictogram fails the 80/10 rule don’t use it. Redesign it or simply use words.
Voltando ao exemplo das bombas de combustível: a história do lado certo da bomba estava muito mal explicada. Se o mito da “seta” ou do “lado em que a mangueira aparece” existia, isso era um sinal de que as pessoas estavam sim querendo saber em qual lado do carro ficava a entrada de combustível, sem ter que necessariamente descer do carro para descobrir.
O que levou Tristam a escrever a segunda lição aprendida:
Lesson 2: If a myth exists it’s often a search for meaning that can be used to identify a design problem, which is the first step to a solution.
—
Depois de ler essa história, fiquei pensando como isso se aplicaria no design que fazemos no dia-a-dia aqui na agência.
Constantemente, vejo Visual Designers criando ícones para a interface de sites ou apps. Muitos deles tentam “soltar a mão” na hora de criar esses ícones, para que o visual fique o mais alinhado possível com a identidade do site/app em que ele aparece.
Mas sempre existe o risco de “soltar a mão demais” – e as pessoas não conseguirem entender o que aquele ícone está tentando dizer. A partir desse momento, o ícone perde a função de ícone e passa a ser apenas um elemento decorativo. Isso quando não corre o risco de confundir mais do que ajudar.
E não é complicado. Chame alguém na frente do computador e pergunte a ela: o que esse ícone quer dizer? Se ela pensar mais do que 2 segundos ou se ela disser uma resposta incorreta, você perdeu. Seu tempo.