Predisposições cognitivas: os “bugs” no pensamento racional dos seres humanos

8GHZ, 500GB de RAM, oito processadores.

8GHZ, 500GB de RAM, oito processadores.

Você é um ser inteligente. Muito inteligente. Dizem que o cérebro humano é a máquina mais poderosa que já existiu. E mesmo assim você muitas vezes se pega arrependido por ter feito determinada escolha. “Nossa, como eu fui acreditar nisso? Por que é que eu achei que isso iria dar certo?”

A máquina mais poderosa do mundo + funcionando 100% do tempo = zero chances de fracasso.

Certo?

Não muito. Acontece que existem essas tais Predisposições Cognitivas (Cognitive Biases) no nosso cérebro que impedem que sejamos racionais o tempo todo. Esse ótimo artigo escrito por George Dvorsky lista algumas dessas predisposições e dá exemplos de situações em que elas são mais comuns.

Traduzi algumas delas e tentei relacionar com situações do ambiente de trabalho. Acho que você já deve ter passado por algumas delas:

Confirmação

A gente adora concordar com pessoas que concordam com a gente. É por isso que só visitamos websites que concordem com a nossa opinião política, e normalmente saímos com pessoas que têm visões e opiniões semelhantes a nós mesmos. É normal repelirmos, imperceptivelmente, indivíduos, grupos e fontes que nos deixem inseguros ou confrontem nossas visões.

Isso se manifesta também no nosso hábito inconsciente de referenciarmos sempre as perspectivas que concordam com as nossas e as abastecem – ao mesmo tempo ignorando opiniões divergentes.

A internet só fez piorar esse cenário. As tais “filter bubbles” (já falamos sobre isso aqui e também aqui) das redes sociais fazem com que nós vejamos mais posts de pessoas que nós “curtimos” e menos posts de pessoas com as quais não interagimos. A longo prazo, isso pode causar a sensação de que você está certo o tempo todo, já que é bombardeado de posts de pessoas (e marcas e veículos) que têm gostos similares a você.

É também essa predisposição que faz com que os puxa-sacos sejam promovidos com mais facilidade. Seu chefe não quer ninguém que discorde dele o tempo todo.

Comportamento de grupo

Similar à predisposição de Confirmação, essa se manifesta devido às nossas origens tribais. E se manifesta quimicamente: a tal da oxitocina (molécula do amor), faz com que nós criemos laços mais próximos com as pessoas do nosso grupo, e faz o oposto com pessoas de fora dele. O resultado é que nosso cérebro acaba superestimando as habilidades e o valor do nosso grupo imediato.

Ué, tem outro jeito de se vestir?

Ué, tem outro jeito de se vestir?

“Timão é o melhor ô ô”. Ou então “nossa agência é muito foda”. Ou então “eu trabalho no melhor departamento da empresa”.

É ela que também dá origem a grande parte da rivalidade em ambientes (ou mercados) de trabalho. Afinal, você precisa se sentir protegido, então faz sentido que defenda cegamente o seu próprio grupo. Fico pensando se a alta rotatividade do nosso mercado está relacionada de alguma forma à curta duração do efeito da tal molécula do amor.

A falácia do apostador

“Dessa vez vai dar certo, eu tenho certeza”. Você já se pegou falando isso alguma vez? Bom, eu sou um pouco cético, então procuro racionalizar tudo, sempre. Mas existe essa predisposição do cérebro humano em acreditar que “não é possível que agora eu não vou ganhar”.

Outro dia li uma frase ótima: “a megasena é o imposto pago pelas pessoas que não sabem matemática”.

Outro exemplo: você joga a moeda pra cima e dá coroa. Joga outra vez, coroa. Coroa. Coroa. Coroa. A impressão do nosso cérebro é que a 6ª vez que você jogar, é impossível que o resultado não seja “cara”. Mas estatisticamente, a probabilidade continua de 50%. É o seu cérebro que quer acreditar que não.

Superstições também têm um link bem direto com esse viés cognitivo. “Toda vez que eu visto a camisa do meu time e sento nessa ponta do sofá, ele ganha”. Ou “wireframe em Comic Sans, não tem como o cliente não aprovar”.

Racionalização pós-compra

Antes da compra: “Mil e quinhentos reais no novo iPhone? Nem morto.”

Depois da compra: “Nossa, esse iPhone novo vai me ajudar muito no trabalho, ele tem um calendário sincronizado com meu email e também permite que eu grave anotações em voz durante reuniões.”

Nenhum outro celular quebra tão bonito igual esse.

Nenhum outro celular quebra tão bonito igual a esse.

Depois de uma compra cara (ou de algo que você não precisava ter comprado), é natural que o seu cérebro tente se convencer que foi uma ótima ideia ter comprado aquilo. É um mecanismo de auto-defesa, uma forma de nos tranquilizarmos após tomarmos uma decisão talvez-não-tão-certa-assim.

Transportando para o ambiente de trabalho: “foi melhor mesmo a gente ter cancelado esse projeto, ele já estava ficando longo demais”.

Negligenciando a probabilidade

Pegar o carro e dirigir na cidade de São Paulo é tranquilo, mas pegar um avião te faz pensar que ele pode cair a qualquer momento. Bom, a gente sabe que a probabilidade de morrer em um acidente de carro é absurdamente maior do que a de morrer em um acidente de avião, mas nosso cérebro não vai te deixar ficar tranquilo durante o vôo. Da mesma forma, os americanos entraram em uma grande paranoia com os atentados terroristas, mesmo sabendo que as probabilidades de eles acontecerem serem ínfimas.

Agora tá caindo, certeza.

Agora tá caindo, certeza.

Novamente, jogar na megasena é negligenciar a probabilidade de ser um vencedor. Ainda mais no Brasil, onde muita gente fala sobre as tais “cartas marcadas” nesse tipo de jogo.

No campo da experiência do usuário, a aplicação mais comum disso que eu vejo são os designers acreditando que as pessoas usarão o produto simplesmente porque usarão o produto. Minha resposta, quando vejo algo desse tipo, normalmente é “qual a probabilidade da pessoa deixar de fazer isso do jeito que ela já faz e passar a fazer do jeito que você quer que ela faça?”.

Observação seletiva

De repente você passa a ver aquela coisa em todo lugar – e então o seu cérebro acha que foi a frequência que aumentou. É o que acontece quando você compra um carro e, de repente, começa a ver aquele mesmo modelo de carro em todo lugar. Se combinar essa predisposição com aquela pós-compra, é capaz que você passe a justificar dizendo “foi só eu comprar que todo mundo passou a comprar também, certamente eu fiz uma ótima escolha”.

A mesma coisa com números, ou com músicas. Não é verdade que eles estejam aparecendo com mais frequência; é apenas o seu cérebro que está mais atento a essa coisa. É normalmente esse mesmo viés cognitivo que faz a gente desacreditar que foi só uma coincidência.

No ambiente de trabalho: é só você ler uma dessas “listas de tendências” que seu cérebro vai começar a reparar nessas coisas com mais atenção (por mais que essas coisas já fossem tendência muito antes de você ler a tal lista). O que pode ser bom em alguns casos.

Status-quo

Nós, humanos, tendemos a ficar apreensivos com mudanças. Por isso mesmo, temos a tendência a fazer escolhas que façam com que as coisas continuem iguais, ou mudem o mínimo possível. Nós gostamos de nos apegar à nossa rotina, aos nossos partidos políticos e aos nossos pratos favoritos no cardápio dos nossos restaurantes favoritos. Você já sabe como fazer isso, então é muito fácil continuar fazendo.

Por isso as pessoas reclamam tanto quando o Facebook redesenha uma página de seu site.

É daí que vem a dificuldade em tomar a decisão de mudar de emprego, ou de começar a fazer wireframes em um novo software, ou mesmo em deixar de fazer wireframes quando for prudente.

Negatividade

As pessoas se impressionam com más notícias, e não é apenas porque elas são mórbidas. Cientistas sociais teorizam que é natural que nosso cérebro preste mais atenção a esse tipo de notícia, porque a impressão que temos é que as notícias negativas são mais importantes ou profundas.

Steven Pinker, em seu livro The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined, fala que apesar do crime, violência, guerra e outras injustiças sociais estarem diminuindo constantemente, a impressão que as pessoas têm é que elas essas coisas estão piorando.

No ambiente de trabalho, é o clima ficando pesado quando uma pessoa é demitida, por mais que a situação financeira da empresa esteja nitidamente boa.

Projeções

Nós estamos presos dentro do nosso corpo 100% do tempo. Por isso mesmo muitas vezes é difícil projetarmos fora do limite da nossa consciência e dos nossos gostos. Temos a tendência a pensar que a maioria das pessoas pensa exatamente igual a nós – apesar de não haver justificativa nenhuma para isso.

Não apenas supomos que as outras pessoas pensam como nós, mas também supomos que elas concordam com a gente. É uma predisposição cognitiva que existe como forma do nosso cérebro se convencer de que somos pessoas normais, e de supor que existe um consenso para tudo.

Bom, esse eu nem preciso relacionar com User Experience, certo? Nós somos pagos para entender como as pessoas de outros grupos sociais e demográficos se sentem, o que elas querem e o que elas precisam.

Imediatismo

Nós temos essa predisposição natural a preferir o prazer a curto prazo e deixar a dor para depois. Óbvio.

Maçã é muito mais saudável, claro.

Maçã é muito mais saudável, claro.

Já falamos sobre isso aqui no blog. “Quando perguntadas se prefeririam passar a próxima semana comendo apenas frutas ou apenas bolo de chocolate, as pessoas normalmente optavam pelas frutas. Mas quando “a próxima semana” chegava e a essas mesmas pessoas eram oferecidas uma fatia de bolo e uma suculenta maçã, estatisticamente o bolo ganhava.” (leia o post completo aqui)

Efeito âncora

Também conhecido como “a armadilha da relativização”, trata da tendência a compararmos algo somente com um grupo limitado de opções. Tendemos a fixar um valor e a comparar todo o resto com esse valor que fixamos.

É o famoso “de R$39,99 por R$15,99″. Quando vemos o primeiro valor, ignoramos o fato de que o mesmo produto pode estar custando metade do preço em outra loja.

Também é por isso que cardápios, sites e e-commerces adicionam produtos absurdamente caros entre as opções, para que as pessoas comparem e acabem achando o preço dos outros produtos razoável.

Pronto, agora você escolhe se quer usar essa lista para o bem ou para o mal :)

Multitasking: estatísticas e consequências para o cérebro

Multi Tasking

O infográfico abaixo, criado pelo OnlineUniversities, mostra alguns números sobre crescimento do hábito de executar várias tarefas ao mesmo tempo enquanto as pessoas estão usando o computador.

Highlight: o cérebro humano sente-se confortável com no máximo duas tarefas acontecendo ao mesmo tempo. Quando uma terceira tarefa entra no jogo, o cérebro começa a dar sinais de cansaço – reduzindo a concentração da pessoa e diminuindo a precisão com que ela realiza o multi-tasking.

Multi-tasking e seus efeitos no cérebro humano

Um mapa com as 48 emoções que alguém pode sentir

Mapa das emoções humanas

O número 48 foi proposto pela EARL (Emotion Annotation and Representation Language), uma empresa de robótica que tenta entender o comportamento humano para replicá-lo em robôs e máquinas.

O mapeamento foi feito pelo americano Robert Plutchik, que detectou 8 emoções básicas, mais 8 avançadas e que resultam em 8 sentimentos. Misturando isso tudo, o ser humano é capaz de sentir 48 emoções diferentes.

O desenho foi um achado do Wagner Brenner e, como ele mesmo disse, daria para passar uns bons minutos nessa mapa tentando entender melhor a regra do jogo.

Para você, caro amigo UX, que passa o dia desenhando experiências para pessoas e tentando despertar nelas emoções que caso contrário elas não teriam – o mapa acima, dependendo do uso que você fizer dele, pode ser bem valioso.

Um autorama onde ganha quem estiver mais concentrado

Você já deve ter lido recentemente sobre um futuro não muito distante onde interfaces serão controladas pelo cérebro, sobre o skate que é controlado pelo cérebro do skatista ou sobre armas que são controladas pela mente dos soldados.

Agora é a vez dos autoramas.

A velocidade do carrinho varia com o nível de concentração de quem o está controlando. E o piscar dos olhos dispara um modo “turbo” no carro, que se não for usado com parcimônia, pode fazê-lo sair da pista.

Amigo UX, vá se preparando para o dia em que você for desenhar interações controladas pelo cérebro :)