A revista Webdesign deste mês traz uma reportagem especial sobre entretenimento na web. O assunto é interessante, principalmente porque o segmento ocupa as primeiras posições no ranking de uso da internet. O Brasil, por exemplo, é campeão de acessos em sites de música, games on-line e vídeos.
Ao mesmo tempo existe um certo preconceito quando o assunto faz par com arquitetura de informação. Lembro imediatamente da palestra do Peter Morville, em 2005, aqui no Brasil. “Por que a Coca-Cola precisa de um Website?”, disse ele, devolvendo a pergunta sobre o tema.
Minha visão sobre envolvimento dos profissionais de arquitetura de informação e usabilidade em projetos com este conceito é mais otimista. Confira abaixo a entrevista que faz parte da reportagem de capa da Webdesign:
WD – Colaboração, entretenimento e interatividade. Estes são alguns dos principais conceitos aplicados na construção de sites inovadores no mercado web nos últimos anos. Como exemplo, podemos citar alguns projetos recentes realizados pela AgênciaClick (Novo Palio Weekend e Fiat Stilo ). De que maneira a arquitetura de informação tem contribuído para o sucesso de projetos baseados nestes princípios? Como a AgênciaClick procura aplicar este conhecimento em seus projetos?
Sabe aquela clássica história que tem o Bom, o Mau e o Feio? Estes dois últimos personagens descrevem bem o papel do arquiteto de informação neste tipo de projeto. O designer sonha e cabe ao arquiteto viabilizar o sonho, o que em alguns casos significa impor limites. Ao contrário do que parece não é uma relação tensa, mas sim de muita troca. O livro Sketching User Experiences, do Bill Buxton, mostra bem a cumplicidade desses papéis. Enquanto o designer propõe, o arquiteto testa. O sketch é “pergunta”; o protótipo “resposta”. Um é “provocação”, o outro “solução”. Isso dá uma bela partida de tênis. rs

A AgênciaClick procura a melhor experiência para o usuário – seja ela mais rica ou até mesmo mais limitada em relação ao que foi concebido inicialmente.
WD – Sites concebidos através do conceito de entretenimento fogem ao habitual padrão de hierarquia dos conteúdos a serem distribuídos pelas respectivas interfaces. O que muda na hora de implementarmos a arquitetura de informação neste tipo de ambiente?
Eu acho que a mudança vem até mesmo antes do job. Lá na Click, por exemplo, não existe uma área de Arquitetura de Informação propriamente dita. Existe uma área de Design com designers e arquitetos trabalhando lado a lado. O arquiteto é envolvido no projeto desde a sua concepção.
Muitas vezes neste tipo de projeto acontece de alterarmos totalmente a metodologia. Alguns jobs, por exemplo, não precisam de protótipo, mas sim de um bom roteiro. Trabalhar em duplas facilita bastante a avaliação do que é mais funcional para o projeto.
WD – Na tese de doutorado “Usabilidade de interfaces para sistemas de recuperação de informação na web”, o professor Robson Santos aponta que “projetar um website de entretenimento é projetar uma experiência envolvente e prazerosa para o visitante, geralmente baseada em imersão”. Na concepção da lógica de navegação e criação das interfaces, quais são os elementos indispensáveis para que um usuário possa obter uma experiência agradável em um projeto deste porte?
Narrativa coerente e uma execução primorosa. O usuário precisa saber como entrar na história e ela tem que ser contada sem interrupções. Às vezes vejo projetos bem interessantes, mas os inúmeros “loadings” e “instala esse plug-in” acabam dificultando a imersão. Já pensou uma pausa em Star Wars bem na hora que Anakin Skywalker vira Darth Vader (ooops, desculpe se você ainda não sabia)? É o que acontece quando a ambição é maior que a realidade das limitações técnicas.
WD – No artigo “Vamos pesquisar”, o especialista Guilhermo Reis destaca que “…sites com uma boa arquitetura de informação são aqueles que nasceram do conhecimento profundo do usuário, da empresa e da relação entre eles”. Diante disso, o que você consideraria fundamental para que este processo de pesquisa seja realizado de maneira eficaz na estruturação de um projeto, principalmente quando ele envolver a aplicação dos princípios de entretenimento na web?
Uma etapa que acho fundamental em todo projeto são as entrevistas exploratórias. Às vezes é uma conversa com o cliente, em outras um planejamento mais elaborado. Aqui na Click criamos um departamento só para isso. A área de Digital Consumer Strategy é totalmente focada em identificar as necessidades e os desejos do usuário. O novo site do Hot Pocket da Sadia é resultado desse trabalho.
WD – Em outro artigo, “Por que as pessoas se perdem ao navegar em um site?”, Guilhermo alerta que “…os usuários que se perdem sentem uma sensação angustiante, associada à confusão, frustração, insegurança, ira e até medo”. Pela sua experiência na área, você poderia descrever os erros de arquitetura de informação mais comuns que podem prejudicar a navegação em um site concebido através do conceito de entretenimento?
Neste tipo de projeto o arquiteto tem que ter em mente os elementos da narrativa. Por onde ela começa? Onde ela termina? Ela é coerente? Não está apenas andando em círculos? Enfim, coisa de redação mesmo que a gente via nos tempos da escola. Tem site que a gente entra e fica perdido porque simplesmente não entende qual a missão ou o propósito dele. Os trabalhos do norte-americano Jonathan Harris, em especial o The Whale Hunt, são prova de que uma boa narrativa pode minimizar muito desses sentimentos descritos pelo Guilhermo.
WD – O frenético avanço da tecnologia permite que os projetos digitais, principalmente os focados no conceito de entretenimento, apresentem novidades que estimulem ao máximo o processo de imersão do usuário pelo ambiente. Como o arquiteto de informação deve se preparar para acompanhar tais mudanças, de maneira que possa antever as soluções adequadas na concepção destes projetos?
O arquiteto de informação é praticamente um acadêmico dentro da empresa. Ele deve ser um constante pesquisador dos limites da tecnologia, criando e testando sempre que possível. Já aconteceu algumas vezes aguardar o cliente e o projeto certo para uma idéia concebida em “laboratório”.
WD – Por outro lado, as redes sociais têm atraído um número cada vez maior de usuários e revelam ainda a necessidade dos profissionais buscarem novas fontes de conhecimentos nos campos das ciências humanas e sociais. Quais são as características que definiriam o perfil ideal do arquiteto de informação?
No começo do ano tive contato com Design Interactions, do Bill Moggridge, e fiquei espantada com o número de disciplinas que estão diretamente relacionadas ao design: antropometria, fisiologia, psicologia, sociologia, antropologia e até mesmo a ecologia. Não existe profissional que tenha domínio sobre todas elas.
Montando aqui o perfil do arquiteto ideal, identifiquei algumas qualidades que acho desejáveis para um bom profissional da área: orientação a clientes e a resultados, comunicação clara, compromisso com a alta qualidade, capacidade de assumir desafios, senso de urgência, visão de projetos, inovação, avaliação de riscos e trabalho em equipe. Bom humor e paciência também são imprescindíveis – estou para ver um trabalho que passe por mais julgamentos do que o de um AI. Costumo brincar dizendo que cada entrega é como se fosse uma defesa de mestrado.
WD – Na edição passada, apresentamos um especial sobre as transformações que a interatividade tem provocado na postura das agências, dos consumidores e dos profissionais. Neste novo cenário, os especialistas ressaltaram a importância da inclusão da arquitetura de informação dentro da estrutura de produção das agências. Como você avalia a realidade do mercado de trabalho para esses profissionais no Brasil?
É muito clara a demanda por arquitetura de informação nas agências, mas é mais clara ainda a falta de profissionais qualificados. Os cursos na área ainda são incipientes e essa formação autodidata em alguns casos é bastante questionável.
O mercado tem que ser mais criterioso na busca de profissionais e os profissionais, em contrapartida, devem investir o máximo na formação e no repertório - se ainda não dá pra bancar uma Usability Week ou uma ida ao IA Summit, então o jeito é ir atrás do que esses caras disseram por lá. O material das palestras muitas vezes fica disponível na web.
WD – Em palestra ministrada no final do ano passado, você ressaltava que a “homepage tradicional está morrendo”, diante das novas possibilidades de apresentação de conteúdo, como os dispositivos portáteis, por exemplo. Neste contexto, é possível apontar quais serão os próximos desafios no caminho do arquiteto de informação?
O que faz o bom arquiteto de informação é a multidisciplinaridade. Não é preciso ser rei em SEO (search engine optimization) e déspota da usabilidade ao mesmo tempo, por exemplo, mas é preciso ser um súdito das duas disciplinas.
WD – Quais dicas bibliográficas você recomendaria para o profissional que deseja se aprofundar neste assunto?
Essas publicações não falam exatamente de entretenimento, mas dão uma boa idéia de como criar experiências interativas mais interessantes e, sobretudo, mais humanas:
Designing Interactions – Bill Moggridge
Designing for Interaction – Dan Saffer
Sketching User Experiences – Bill Buxton
Computers as Theatre – Brenda Laurel
The art of Human-Computer Interface Design – Brenda Laurel
ARQUITETURA DE INFORMAÇÃO EFICAZ EM ENTRETENIMENTO
Novo Palio Weekend
Adoro as referências utilizadas nesse projeto – a história de João e o pé de feijão e a literatura de cordel. Acho que é um ótimo exemplo de como a narrativa é importante para a experiência de navegação perfeita
We Feel Fine
Pela bela combinação de arte, literatura, antropologia e ciência da computação que já virou marca do trabalho deste norte-americano de apenas 29 anos
Softbank
Tinha que ter um site japonês na lista. Escolhi o desta empresa de telecomunicação. A navegação é simples, humana e instigante. A gente quer descobrir o que cada pessoa está fazendo ali no amplo gramado
Flickr
Muitos vão discordar que este seja um site de entretenimento. Mas de 2005 para cá já postei mais de 5 mil fotos (todas organizadas e taggeadas) e tive mais de 30 mil visitas – quase todas de familiares e amigos. Sempre que volto de viagem ou de alguma festa a primeira pergunta que me fazem é: “Silvia, já colocou as fotos no Flickr?”. As formas de distribuição e visualização das fotos permitem que o usuário escolha a experiência que quer ter com elas, o que acho fantástico
You Tube
Desde que ele foi lançado não teve um dia sequer que não recebi um e-mail com um link de lá. Já passei horas em casa na frente do You Tube, esquecendo completamente que tenho TV. É um site que está tanto na mídia quanto na boca do povo
Heidies
Gosto bastante desse case da sueca FarFar, Grand Prix de Cyber em Cannes no ano passado. Tive a oportunidade de ver o Nicke Bergstrom contando ele pessoalmente no último FIND (Fórum Internacional de Design e Tecnologia Digital). É uma história de acreditar na idéia e fazer de tudo para que ela aconteça.