Sentimentos que só a internet pode proporcionar

Hoje li um artigo incrível e não poderia deixar de compartilhá-lo aqui no blog. Foge um pouco do assunto “arquitetura de informação”, mas esbarra em “comportamento humano e internet” – e isso é motivo de sobra para publicar.

Segue abaixo uma tradução + tropicalização + síntese do texto original.

A internet fez com que a humanidade passasse a experimentar sentimentos que não encontramos em nenhum outro lugar do mundo: a alegria quando alguém entra para a sua comunidade do orkut ou o indescritível prazer de ser retuitado. Mas passar muito tempo online faz com que você se confronte com emoções não tão bem-vindas assim.

Vamos a elas.

1. A solidão aguda das redes sociais

Ninguém me ama, ninguém me quer.

Você gasta 45 minutos escolhendo o link perfeito para compartilhar com todos os seus amigos do Facebook, finalmente decidindo por um vídeo de um gatinho que faz a dança da garrafa enquanto mia copiosamente em cima da mesa. Você compartilha o vídeo acompanhado de um comentário inteligente, e logo percebe que é hora de dormir. Você vai para a cama satisfeito, pensando em quão gratos seus amigos ficarão por você ter compartilhado aquele vídeo com eles.

Na manhã seguinte você abre o Facebook, pronto para ler e responder as dezenas de comentários e se depara com a seguinte cena:

Digno de cortar os pulsos com o fio do mouse.

Ainda ressabiado, você vai para o blip.fm ver se alguém retuitou aquele clipe indie que você postou na manhã anterior, e nada. Sua caixa de e-mails está vaziazinha da silva. Nenhum spam, nenhuma oferta extraordinária, nenhuma corrente sensacionalista da sua avó contando da nova modalidade de assaltos que estão sendo praticados na cidade.

Arrasado, você desce a rolagem do Facebook e vai lendo os updates incríveis dos seus amigos e babando em suas fotos lindas com efeito vintage. A vida deles continua acontecendo normalmente, sem a menor referência à sua. “Será que eles se importam?”, você pensa.

Você.

Sentir-se sozinho na multidão é um sentimento um tanto comum para quem vive em uma grande metrópole. Mas o que faz esse sentimento se tornar único na internet é o fato de que a multidão é formada quase inteiramente por pessoas que você conhece e que deveriam gostar de você. É como contar uma piada sem graça em uma festa surpresa que fizeram para você; mas pelo menos nesse caso você sabe que foi só uma piada sem graça e que seus amigos não te odeiam secretamente por isso. Senão não estariam na sua festa.

Mas com cada vez menos amigos “reais” no Facebook e em outros sites do gênero, e com o fato desses sites não permitirem visualizar a expressão no rosto das pessoas ao ouvirem a sua piada sem graça, você deixa a obsessão de lado por uns instantes e tenta racionalizar. E se ninguém estava vendo o Facebook na hora que você postou o vídeo? E se eles viram o vídeo e gostaram, mas esqueceram de clicar em “curtir”? E se deu algum problema no site no minuto em que eles iam deixar um comentário?

Não, não. A quem você está tentando enganar? Eles devem ter visto seu nome ao lado do vídeo e pensado “que porcaria de gato é essa?” ou “nossa, como eu detesto esse cara”. Eles provavelmente só te mantêm na lista de amigos para se sentirem melhor por não estarem tão pançudos quanto você.

Então você se entrega ao desespero, até se distrair com o próximo vídeo de gatinhos que encontrar por aí.

2. A síndrome da falsa intimidade

Fiuk, seu lindo.

É comum. Relações não-tão-mútuas onde a primeira pessoa é obcecada pela segunda, mas a segunda nem sabe que a primeira existe. Antigamente era um sentimento exclusivo entre ídolos e fãs – mas a internet democratizou esse sentimento de forma terrível.

Não estamos falando apenas de stalking ou de jovens apaixonadas pelo Fiuk.

Você começa a ler os posts de determinado blogueiro e depois de um tempo passa a assinar o feed do blog. Quando algo controverso acontece em sua rotina, você passa a pensar: “o que será que aquele blogueiro pensa sobre isso?”. E você vai até o blog conferir. Em algumas semanas seu cérebro já assume que vocês são velhos amigos e que já tiveram extensas conversas noite adentro, sobre os mais variados assuntos.

Você conhece as opiniões dele, sabe sobre sua vida, vê suas fotos. Mas ele não sabe disso caso te encontre em um evento e aperte sua mão.

Afinal, ele tem amigos muito mais legais que você.

É claro que a maioria de nós não vai cometer um crime passional e deixar uma rosa vermelha na cama do sujeito por causa disso. Mas certamente você vai ficar frustrado se um dia ele te tratar com frieza em algum evento ou se, por algum motivo, ele descontinuar o tal blog.

3. A epidemia do conhecimento excessivo

Sabe quando você conhece aquela garota interessantíssima que é amiga de um amigo seu e, no meio da conversa, ela fala para você adicioná-la no orkut? Chegando em casa você corre para o computador e vasculha o perfil da garota de cabo a rabo atrás de informações que comprovem que ela é realmente interessante.

Daí você bate o olho nas comunidades das quais ela participa.

E quem nunca lambeu, não é mesmo?

“Ok”, você pensa. Você poderia lidar com isso naturalmente caso vocês já fossem casados. Ou pelo menos se ela não fizesse isso na sua frente enquanto vocês estiverem namorando.

Pensando bem, você preferiria ficar sem saber dessa.

E não é só no que tange a relacionamentos amorosos, não. Quando você vê um update desses no Facebook de um amigo, você certamente não olhará para ele com os mesmos olhos quando vocês se cumprimentarem da próxima vez.

Aham, claudiá, senta lá.

4. Comparação obsessiva-compulsiva

Este é outro sintoma decorrente de reunir em um mesmo lugar muita gente que você já conheceu um dia. Como é que será que anda a vida daquela menina que você namorou na sétima série e que te deu um pé na bunda? E o malandrão do colegial que costumava te apelidar com os nomes mais esdrúxulos?

Nesse caso, a maneira mais segura de manter a sanidade é imaginar que essas pessoas hoje estão trabalhando com análise biológica de esterco de elefantes, ou pelo menos tendo um relacionamento amoroso doentio.

Ilustração do exemplo supracitado.

Mas não.

A internet faz questão de te mostrar que hoje essas pessoas têm vidas perfeitas e muito mais emocionantes que a sua. Durma com esse barulho.

5. Impotência intelectual crônica

Finalmente, o último dos sentimentos. Ver gente bem sucedida na internet pode te deixar nervoso. Mas ver isso aqui é muito pior:

Aceita-se doações de cérebro.

Antes da internet, quando alguém falava um absurdo desses, era só você dar um soco na cara e tudo estava resolvido. Ou pelo menos fazer aquele olhar de desprezo na próxima vez que cruzasse com a pessoa.

Mas hoje, na internet, só o que você pode fazer é argumentar. E argumentar.

Oito horas depois, quando o fulano aí de cima já desistiu de argumentar com você e te xingou de tudo quanto é nome antes de te deixar falando sozinho no msn, você percebe que não há nada que você possa fazer.

Você passa a noite enfurecido. Inconformado porque não conseguiu convencer beltrano de que a solução para a pobreza mundial não é imprimir mais dinheiro. E mesmo quando consegue, você se lembra que sempre vai ter mais alguém no mundo que também acredita nisso.

Bônus: dois rapazes conversando em uma festa. Nada demais.

Interessante observar como as relações humanas foram sendo transformadas pela internet. E mais: tentar projetar essas transformações para os próximos anos. Será que quem não utiliza sites de relacionamento está totalmente isento desses sentimentos?

O artigo original você encontra aqui.

Sobre Fabricio Teixeira

Fabricio é arquiteto de informação, mas acha que isso tem cura. Vive organizando coisas, nas horas vagas e nas horas pagas. Siga-o em twitter.com/fabriciot
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7 respostas para Sentimentos que só a internet pode proporcionar

  1. gustavo disse:

    Ótimo!
    Uma coisa que notei também no comportamento é a BANALIZAÇÃO do sarcasmo/ironia.
    É algo que eu gostaria de saber as origens… As vezes eu acho que deve também ser relacionado ao consumo de seriados como Lost ou aquele tal de dr. House, que só possuem discursos secos e etc…
    Tem também a linguagem, exemplo é aquela fan do pe lanza.

  2. Talvez a necessidade de sermos populares, de sermos lembrados por alguém, nos faz pensar que estamos solitários no mundo. Na verdade, a internet afasta as pessoas que estavam sempre perto de nós, e “aproxima” quem está longe. É uma ilusão acharmos que a nossa amizade virtual, um dia se tornará real, apesar do Twitter, nos seus primórdios, tem dado a esperança para isso, mas não é tão bem assim. Eu creio que devemos seguir a idéia original da internet, que é aproximar pessoas, que o vá além do mundo de bits, e bytes, demosntrando a verdadeira amizade.

  3. Raquel disse:

    E o sentimento de não postar um comentário quando vc vê que tem uma mãozinha pro povo gostar ou não do que vc disse?

  4. Helem disse:

    Meu pai sempre me disse que quem nunca comeu mel, quando come se lambuza! Isso me parece, faz parte de uma imensa adaptação ao novo. A humanidade está entre um lugar e outro, entre a ignorância e o excesso de informação. Talvez um dia saibamos dosar as porções as serem consumidas, e nos adaptemos ao melado de informações e possibilidades adocicadas que não param de jorrar do labirinto cibernético. Me fez pensar… vou me aprofundar!

  5. Eitch disse:

    Felizmente todos esses sentimentos são para os verdadeiros perdedores :P Seja virtual ou não, eles existem e tem esses mesmos sentimentos, só mudando o meio com que atuam. Por outro lado, se criassem um artigo sobre os sentimentos BONS que a Internet traz, acho que seria bem grande… hehe

  6. Marcius disse:

    Concordo quando dizem que são sentimentos experimentados pela novidade, a internet muitas vezes nos parece algo que sempre existiu, mas ainda é algo que está caminhando e ganhando seu espaço, suas capacidades sensoriais ainda não são definidas e como tudo criado pelo homem, ela pode tender tanto ao bem quanto não.

  7. Pingback: Procrastinemos | Arquitetura de Informação

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