Testes de usabilidade custam basicamente nada

Li esses dias uma entrevista de Jared Spool, CEO da User Interface Engineering e co-autor de alguns livros sobre User Experience e Testes de Usabilidade. Em uma de suas respostas, Spool explica que testes de usabilidade são mais baratos e simples de serem feitos do que se imagina.

Traduzi abaixo a pergunta de Russell Wilson e a resposta de Spool:

Alguns times de desenvolvedores parecem procurar por formas mais baratas e rápidas de validarem seu design. Usabilidade é frequentemente percebida como sendo muito cara. Você acha que os testes de usabilidade devem ser barateados? Perguntando melhor: teste de usabilidade, hot or not?

Um teste de usabilidade, em sua forma mais básica, custa basicamente nada. É um processo simples. Você senta do lado de alguém e o assiste experimentando seu design.

Qualquer custo adicional vem da tentativa de adicionar rigor ao processo. Rigor não precisa ser caro, mas pode ser caro.

Pense que é como pintar uma casa. Uma pessoa pode fazer tudo praticamente sozinha, economizando uma boa quantia, mas provavelmente isso vai tomar muito tempo e, sem as ferramentas adequadas, ela não vai produzir um resultado de alta qualidade. Mas vai ter pintado a casa.

A questão é quanto valem o tempo e a qualidade. Há uma relação entre quanto você investe e a qualidade e velocidade que você vai ter de volta. Compre uma escada, uns pincéis e rolos de melhor qualidade, tintas melhores e peça a ajuda de algum estudante colegial desempregado, e você terá uma pintura melhor em sua casa.

A mesma coisa acontece com testes de usabilidade. Investimentos inteligentes aumentam a qualidade.

Mas há uma coisa que difere de pintar uma casa: pode ser um erro contratar alguém para testar para você.

O principal benefício de qualquer projeto de teste de usabilidade não é o relatório de recomendações que é entregue no final. Nossa pesquisa mostra que o benefício é a exposição que o time tem ao observar usuários reais utilizando seu design. Quanto maior essa exposição, melhores são os produtos entregues.

Se você contrata alguém para fazer o seu teste, bem, é mais ou menos como contratar alguém para curtir suas férias – a tarefa é feita, mas você perde a melhor parte.

Então, o maior investimento em testes de usabilidade não é o dinheiro – que até pode ser não muito caro. É o tempo. Nossa pesquisa mostra que as equipes das organizações mais eficazes gastam pelo menos duas horas a cada seis semanas observando usuários interagirem com seus projetos. Cada membro da equipe.

E a experiência se paga muito rapidamente. O time agora sabe como é usar o design. Eles sabem quais mudanças tiveram o impacto que eles esperavam, e quais delas nem foram notadas. E eles vêem como alguns problemas pequenos e irritantes podem arruinar soluções consideradas inovadoras.

É muito barato começar a praticar testes – se a dúvida é fazer ou não o investimento.

Agora, se você estiver preocupado com os gastos, eu recomendo que você faça um produto realmente de baixa qualidade. Sempre haverá uma solução mais barata. (E é interessante observar que se você quiser realmente fazer um produto de baixa qualidade, você consegue fazer muito rapidamente, também.)

Muito bacana a metáfora que Jared fez sobre a pintura da casa. Aqui na agência temos investido bastante em testes caseiros e mais frequentes, seja com recrutamento de um perfil específico de público-alvo, seja com o colega do lado. Recentemente desenvolvemos um aplicativo de iPhone em que perdi a conta do número de testes de usabilidade que foram feitos com o próprio time da agência, além dos testes que o próprio desenvolvedor fazia para assegurar a estabilidade do aplicativo. No fim, a troca de experiências entre esses dois tipos de teste foi riquíssima, e não custou nada mais do que algumas horas e um pouco de bom senso.

É claro que para determinados tipos de projeto a contratação de especialistas dedicados é indispensável. Mas quando os custos inviabilizam o projeto de testes, o jeito é improvisar. Como bem concluiu a Silvia em nossa última apresentação no Ebai: “Qualquer pesquisa é melhor do que nenhuma pesquisa”.

A entrevista completa de Jared Spool está publicada no UI Trends.

Sobre Fabricio Teixeira

Fabricio é arquiteto de informação, mas acha que isso tem cura. Vive organizando coisas, nas horas vagas e nas horas pagas. Siga-o em twitter.com/fabriciot
Esta entrada foi publicada em Metodologia, Usabilidade e marcada com a tag , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

11 respostas para Testes de usabilidade custam basicamente nada

  1. Lendo este post me lembrei de Steve krug. Em seu livro Não me faça pensar, ele dedica um capitulo inteiro a esta ideia. Intitulado como “Testes de Usabilidade a Dez Centavos Por Dia” ele traz algumas reflexões interessantes:

    > Testar um usuário é cem por cento melhor do que não testar nenhum, por pior que o teste seja, com o usuário errado, irá lhe mostrar o que pode ser feito para melhorar o site.

    > Testar com um usuário no início do projeto é melhor do que testar com cinquenta no final.

    > Caso você queira fazer os testes de navegabilidade de forma eficaz e bem feita, e com um custo baixo, faça você mesmo. Você pode observar as pessoas enquanto elas tentam utilizar o site e perceba onde elas encontram os problemas.

  2. Jonas Felipe disse:

    “O principal benefício de qualquer projeto de teste de usabilidade não é o relatório de recomendações que é entregue no final. Nossa pesquisa mostra que o benefício é a exposição que o time tem ao observar usuários reais utilizando seu design.”

    O mundo hoje: Consultorias de usabilidade enriquecendo, times de designers que não tem idéia de como o usuário interage com seus projetos. Triste…

    Muito bom o post.

  3. Let disse:

    Muito bacana o post, Fabrício. E tenho percebido que diversas pessoas da área tem despertado para esta questão. Pesquisas são bacanas e eventualmente elas devem fazer parte de um projeto. Mas os testes de usabilidade não devem ser considerados pesquisas comuns: eles devem ser considerados como parte do processo. Do seu processo de trabalho. Você tem a etapa do insight, do sketch, do protótipo e a etapa do teste é mais uma. Para isso ser realidade, só fazendo testes caseiros, do contrário, você estará terceirizando uma etapa importante do seu processo criativo.

  4. Emerson Niide disse:

    A elisa mandou o post na lista de AI do UOL :). Respondi lá mas vou colar o comentário aqui tbm.

    Bacana o post.

    Tava lendo esses dias uma alertbox em que o Nielsen faz uma comparação com comida: qqr um pode cozinhar, e às vezes você precisa de um miojo e às vezes vale pagar um belo jantar, depende da situação – http://www.useit.com/alertbox/anybody-usability.html

    Só fico sempre com uma pulgazinha atrás da orelha com a amplitude de “*qualquer* teste é melhor que nenhum teste”, acho que “*praticamente qualquer*” teste… Porque a gente sabe que tem gente boa por aí e gente tosca, né? E não é nada difícil viciar pesquisa ou distorcer dados e análise. Então em qualquer teste de gente com noção eu confio, mas não qualquer de qualquer um, haha.

    (na verdade eu tô só dizendo isso pq adoro esse comercial da W/ de antigamente e queria que ele fosse argumento pra poder linká-lo: http://www.youtube.com/watch?v=nd9R7ZxhjJ8 )

  5. sara disse:

    eu gostei muito é legal eu tenho 13 anos e quero ser arquiteta por favor mim agude.
    obrigado

  6. Agni disse:

    Estou passando por esse processo nesse momento: testes de Usabilidade que não podem custar muito, mas que vêm sendo muito importantes. Em um projeto atual, estamos convocando algumas pessoas com o nosso perfil de usuário, deixando que eles usem o site através de um roteiro definido e também por conta própria, fazendo questionário emocional, observando, conversando… Venho conseguindo grandes melhorias em termos de interface, e somando uma grande experiência como designer ao aplicar os testes.
    Os investimentos vêm sendo apenas a comissão dos usuários que testam. Os resultados são um bounce rate menor nas páginas, e outras melhoras nos resultados.

    Parabéns pelo post!

  7. Pingback: Frustração catalogável | Arquitetura de Informação

  8. Pingback: Os entregáveis da Arquitetura de Informação | Arquitetura de Informação

  9. José disse:

    Apenas para lembrar que contratar os testes de usabilidade e assistir os testes não são alternativas excludentes.
    Nós sempre estimulamos o cliente a assistir os testes. E aí incluímos não apenas o time do projeto (arquiteto, designer etc) que está envolvido, mas também as pessoas do cliente final com interesse no projeto (inclusive o pessoal do Marketing…).

  10. Pingback: Guilherme Veras » Blog Archive » Testes de usabilidade custam basicamente nada | Arquitetura de Informação

  11. Pingback: A composição de um time multidisciplinar de UX | Arquitetura de Informação

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Gravatar
WordPress.com Logo

Please log in to WordPress.com to post a comment to your blog.

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s