Que as multinacionais incorporam a diversidade cultural em seus produtos e serviços não é novidade. Basta ver como o cardápio do McDonalds varia mundo afora: no Brasil tem sundae de manga; na Índia McCurry, entre outras opções de sanduíches vegetarianos.
O que é regra de ouro no mundo globalizado ainda é um metal a ser purificado no mundo virtual. Não são raros os casos de grandes empresas que simplesmente desconsideram as características locais em seus websites.
A companhia aérea Iberia, por exemplo, tem a preocupação de perguntar em seu sistema de reservas qual o tipo de comida que mais lhe agrada: kosher, mulçumana, hindu… É um verdadeiro banquete com mais de 20 opções promovendo a união dos povos. E tem mais: ao entrar no site, nada de identificações. O sistema já reconhece que o acesso provém do Brasil e apresenta as informações em português.

Mas as relações diplomáticas terminam por aí. Ao se identificar o usuário encontra um sério problema de usabilidade: tem que informar seu nome em três campos nada convencionais – nome, apelido paterno e apelido materno. O preenchimento errado com certeza implicará em alguns inconvenientes na emissão da passagem.

Campos para a identificação do passageiro
Quem procura por uma concessionária no site brasileiro da Ford vai ampliar seu vocabulário, já que a empresa, por uma decisão da matriz, prefere chamar suas lojas de “distribuidores”. Nas palavras do atendimento online da montadora:

O antropólogo Geert Hofstede, autor de “Cultures and Organizations: Software for the Mind”, identificou 5 principais valores que podem ser utilizados para entender as diferenças culturais:
Distância ao poder: Até que ponto os membros de uma sociedade aceitam a distribuição desigual de poder? Isso com certeza afeta o comportamento dos menos poderosos em relação aos mais poderosos
Individualismo x coletivismo: Culturas individualistas preferem uma estrutura social frouxa, em que cada indivíduo cuida apenas de si mesmo e de sua família. As coletivistas primam mais por um comportamento social de solidariedade, em que cada indivíduo espera que seus parentes ou grupo a que pertença cuidem dele, em troca de lealdade. O ponto básico é qual o grau de interdependência que a sociedade mantém entre seus membros
Masculinidade x feminilidade: Enquanto as sociedades mais masculinizadas expressam a preferência por sucesso material, competitividade, agressividade e desempenho as mais femininas valorizam a qualidade de vida, relações humanas, dedicação e solidariedade
Aversão à incerteza: Qual o grau de desconforto que os membros de uma sociedade sentem com a incerteza e a ambigüidade? Essa característica irá demonstrar a preferência por situações mais ou menos estruturadas
Orientação a longo prazo: Os valores positivos de austeridade e tenacidade e aos valores negativos de respeito pelas tradições e conformismo social – o medo do que “os outros dirão”
Resumindo as palavras de Hofstede: nós somos diferentes. E a usabilidade, pelo visto, ainda não carimbou o passaporte para a questão da multiculturalidade.
MAIS SOBRE O TEMA
Um estudo realizado em 1994 na Universidade de Twente, na Holanda, mostrou a influência desses diferentes valores em testes de usabilidade: “Cultural Differences and Usability Evaluation: Individualistic and Collectivistic Participants Compared“. Nos Estados Unidos, Ravi Vatrapu e Manuel A. Perez-Quiñones conduziram um estudo semelhante em 2006: “Culture and Usability Evaluation: The Effects of Culture in Structured Interviews“.



