Eu não poderia deixar passar despercebida a estréia da TV digital no Brasil, realizada na noite deste domingo, 2 de dezembro. É um debute tímido, restrito a Grande São Paulo e celebrado apenas por quem já possui aparelhos com conversores (ou seja, quase ninguém).Essa festa deve continuar sem convidados por muito tempo, já que ainda é vaga a previsão para a chegada dos convites, quer dizer, dos conversores ao mercado. E enquanto eles não vêm cabe a nós preparar cuidadosamente os docinhos e canapés da recepção. Explico: além da qualidade de cinema uma das grandes promessas da TV digital é a interatividade.
A TV interativa não é novidade no Brasil, mas como também não é feita em larga escala acaba tropeçando tanto no design quanto na usabilidade. O maior erro para quem desenvolve esse tipo de aplicação, e digo isso por experiência própria, é querer aproximá-la ao extremo da web.
O consultor Roger Johansson, do 456 Berea Street, escreveu um pequeno manual de primeira viagem que ilustra algumas diferenças entre as duas plataformas. Eis aqui um bom ponto-de-partida para o desenho de interfaces para a TV:
1. Tamanho da tela: geralmente a tela da TV é mais larga que a do computador, mas possui uma resolução menor. Na TV existem dois formatos bem definidos: standard (4:3 ou 640×480) e widescreen (16:9 ou 1920×1800). O designer deve considerar uma margem de segurança para que o conteúdo apareça na tela: 5% para imagens e 10% para textos
2. Rolagem: apesar de possível não é tão simples e confortável quanto no browser
3. Pixels retangulares: No computador os pixels são quadrados. Na TV são retangulares. É preciso se precaver pois círculos tendem a ficar ovais na TV
4. Montagem da tela: computadores usam a técnica “progressive scan”, que monta a tela inteira em uma única passada, transmitindo e exibindo todas as linhas a cada atualização. A TV (as telas de plasma e de LCD já corrigiram isso) trabalha com uma técnica inversa, o “interlaced”, que monta em cada passagem metade das linhas da tela, as linhas pares ou ímpares, formando a ilusão de uma resolução maior e transmitindo apenas metade da imagem formada. Para evitar que a tela fique vibrando ou piscando é preciso fazer uso do blur e evitar cantos retangulares, que criam ondulações nas bordas
5. Cores e contrastes: O range de cores é bem menor na TV. Cores saturadas – para mais ou para menos – devem ser evitadas. A imagem na TV é mais borrada que no computador
6. Fontes e leitura: as fontes deve ser muito maiores do que as do computador, com tamanhos entre 18 e 24 pontos e anti-alias. Fontes sem serifa e mais grossas também são recomendadas – nessa lista entram a VGA Rounded, Trebuchet e Gill Sans, entre outras.
7. Distância de uso: enquanto os usuários de computador estão bem na frente da tela, os da TV estão um pouco mais longe. Estima-se que para TVs de 14 e 21 polegadas a distância média fica entre 2 e 4 metros. Com isso as imagens devem ser muito maiores do que as do computador
8. Navegação: A principal navegação para a TV interativa é o controle remoto. Evite menus sofisticados ou que não sejam fáceis de usar via controle
9. Som: a ausência de som na internet raramente é notada, mas na TV ela causa uma sensação de vazio. O som deve ser claro e, preferivelmente, não repetitivo
Em uma rápida pesquisa notei que o que não faltam são informações e publicações sobre o tema. Mark Gawlinski, autor de Interactive Television Production, está presente em quase todas elas. No Brasil recomendo a leitura dos trabalhos de Gil Barros, que tem um mestrado sobre o tema, e de Lauro Teixeira. Não deixe de compartilhar suas referências. Os convidados estão para chegar!